"Um mundo se abrirá aos seus olhos"
Este pequeno livro fala sobre a perda do amor e o confronto com a recordação — a assimilação da morte irremediável. O texto pode ser caracterizado como uma novela fantástica, mas talvez seja mais propriamente uma narrativa alegórica de teor filosófico e que beira a prosa poética. Entre passagens de reflexões, de caráter mais ensaístico, e sequências narrativas, o narrador, deparando-se com o palco de um antigo amor perdido, mergulha em questionamentos sobre o destino dos amores que morrem. Seguindo os seus passos, chegamos a um espaço destacado do mundo, no limiar crepuscular entre a vida e a morte, o sonho e a realidade. A sucessão de contemplações afigura-se então como uma alegoria poética para os sentimentos de perda e finitude, expressão e incomunicabilidade, verdade e representação. As vivências, uma vez passadas, tornam-se lendas, transubstanciam-se em arte e, de certo modo, renascem, não mais como foram, mas agora como elaborações derivadas. Tudo que se consumou deve retornar ao pó, e somos incapazes de conter esse processo inexorável. Só nos resta o dilema entre sucumbir ante a constatação de nossa natureza efêmera e solitária ou seguir o impulso, sempre potente, de retorno à vida, após a imperatória “descida aos ínferos”.